terça-feira, 23 de abril de 2013

Sobre corrupção e distância.


Hoje vivemos o momento da Lei da ficha limpa, da execração de políticos corruptos. Por outro lado, a velha máxima do malufismo do “rouba, mas faz”, talvez ainda não tenha sido ultrapassada. Eticamente, deveríamos execrar a figura do político corrupto ou ele representa uma parcela da população também corrupta e que só não se faz ver devido à falta de oportunidade?
Esta é uma questão que proponho para meus alunos de filosofia e ética. Analisá-la não é tarefa das mais simples. Facilmente caímos em julgamentos prematuros, sem chegar ao cerne da questão. Procuro encaminhar a análise ética pela busca dos valores ou dos princípios que teriam a capacidade de justificar, ou ao menos de nos fazer tolerar a conduta corrupta. Apressadamente cairíamos em algum julgamento do caráter do corrupto e do corruptor, como indivíduos desqualificados, egoístas, mau-caráter, numa palavra: de índole má.
Contudo para que se possa postular uma índole má precisamos dizer que existe um mal que rege esse indivíduo. Isso nos coloca diante de um problema, para lá de complicado. Santo Agostinho já nos disse que o mal é somente carência de bem e, portanto, não existe um mal em si. Então que valor poderia justificar uma conduta desse tipo?
Em nossa sociedade capitalista, sabidamente oferecemos bastante importância para algumas coisas comuns em nossa cultura: lucro, individualidade, acumulação de recursos, dinheiro, sucesso, vitória, prestígio entre outros tantos dos ditos, signos distintivos de nossa época. Aquele que rapidamente aproveita as oportunidades de negócio que estão ao alcance é chamado de esperto. Aquele que usa inteligentemente de argumentos para colocar-se em vantagem em alguma negociação tem sucesso. Quando compramos um produto qualquer, abaixo do seu real valor e vendemos acima, fazemos um bom negócio. Todas essas são condutas socialmente aceitas. Mais do que isso, são completamente legais.
Um bom negócio aqui, um belo lucro lá, uma esperteza acolá e nos sentimos confiantes para arriscar o ganho excedente em transações mais ousadas. Daí a chegar ao nível das grandes oportunidades, aquelas que nos recompensam com polpudas boladas é só uma questão de tarimba e sangue frio. Diferenciar a estreita e quase invisível linha que separa o grande negócio do negócio ilegal é tarefa das mais complexas. Mais ainda, quando pelo receio de sermos desonestos não fechamos algum grande negócio e vemos que um outro qualquer, sem titubear, ganhou a bolada sem o menor risco e ficamos com a cara de bobos. A feição de corrupção parece que vai se atenuando à medida que vamos nos habituando e indiferenciando o arriscado do desonesto. A corrupção parece ter cara mais feia quando vista de longe. Quando vista de perto ela se assemelha ao sucesso, ao arrojo ou á vitória.
Por outro lado sabemos que, para os cargos legislativos e executivos os políticos são democraticamente eleitos pelo voto popular. Portanto são legítimos representantes do povo. Também sabemos que a maior parte da população não diferencia “denúncias” de corrupção da própria corrupção e também confunde corrupção com intriga da oposição. Acabamos por generalizar: todo político é corrupto. A diferença é que alguns fazem alguma coisa, outros não.
A dificuldade desse cenário é que nele existem as condições perfeitas para a produção de um determinado tipo de “bolor” social. A indigência, a mendicância e a violência. A caridade é bem vista em nossa sociedade, mas não seria necessária se todos tivessem condições dignas de vida. A indigência é subproduto natural da exclusão social. Vemos, ao perambular pelas ruas, pessoas famintas distantes uma parede ou uma porta do alimento. Vemos pessoas com frio a um muro de um abrigo. A solidariedade requer condições propícias para se manifestar e não é no mundo dos negócios. Nesse meio ela é signo de fragilidade.
Basta-nos manter a pobreza a certa distância e a capital em Brasília para podermos protestar contra os malfeitores, assegurar nosso sustento diário e um bom negócio eventual sem sentir enjôo do mau cheiro da indigência.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sistema capitalista


Há algum tempo venho pensando sobre como será o mundo pós-capitalismo. Muito se comemorou a queda do muro de Berlim. Fato emblemático que permitiu a reunião de pessoas que se mantinham separadas por muros dentro de uma mesma cidade, falando o mesmo idioma, rezando o mesmo credo, mas separadas por ideologias diferentes. As segregações raciais ainda existentes ao redor do mundo parecem também se dissolver pouco a pouco. África do Sul, Iraque, a antiga Iugoslávia... os muros estão sendo derrubados ainda que timidamente. As recentes rebeliões, aparentemente buscando liberdade no oriente médio vêm oferecendo novos contornos ao mundo. Por outro lado, o fim da Guerra fria, também fez acabar com a ajuda mútua entre os países capitalistas. Nós, países em desenvolvimento ganhamos e perdemos com isso. Ganhamos o fim das ditaduras militares, historicamente financiadas pelos países ricos que temiam que o “comunismo” se alastrasse para além da Cortina de ferro enamoradas dos antigos regimes populistas. Ganhamos uma pretensa democracia, novos populismos. O upgrade na categorização de “Terceiro mundo” para “Em desenvolvimento”. Ganhamos uma autonomia para cuidar de nossas próprias contas e controlamos a inflação.
Todavia, o processo de globalização se tornou predatório. Produtores de rúcula, agrião, almeirão e chicória passaram para a monocultura do alface “macdonaldizado”. Bancos de lá e de cá foram engolidos pelos grandes. Empresas de vários ramos de atividade foram tragadas por conglomerados multinacionais com sedes nacionais ou internacionais (pouco importa!), ceifando centenas de milhares de postos de trabalho exigindo que os profissionais se reinventassem ou se tornassem “terceiros”. Por sorte a tecnologia e os cursos tecnológicos surgiram para suprir uma demanda crescente por mão de obra pouco mais qualificada. Ainda que em nossa economia brasileira um progresso represado durante anos possa agora ser experimentado sazonalmente, não podemos nos enganar e confiar que estamos imunes aos sobressaltos das crises econômico-especulativas que fazem muitos ao redor do mundo apertar um ou outro buraco do cinto.
Países inteiros em crise, pois a torrente financeira ascendente que marca a pirâmide social, aliada a incertezas dos mercados. Faz o capital de investimento que poderia irrigar a base da pirâmide descer timidamente e somente como capital especulativo. Recolhendo-se em sua maioria nas mãos privadas dos endinheirados. Essa situação não tem como perdurar por muito tempo. Penso que já sejam observáveis fissuras nas colunas de sustentação do próprio sistema capitalista. Não se trata de qualquer tipo de catastrofismo escatológico, mas de vislumbrar que o próprio capitalismo nasceu em meio a crise similar experimentada em regime ainda essencialmente feudal dando sinais claros de fadiga.
É que a maior parte de nós nasceu, cresceu e viveu mergulhado até o pescoço no capitalismo e, por falta de alternativas emergentes ainda soa epistemologicamente como verdade absoluta. Ledo engano! Peter Drucker nos diz que:

A cada dois ou três séculos ocorre na história ocidental uma grande transformação. [...] Em poucas décadas a sociedade se reorganiza – sua visão do mundo, seus valores básicos, sua estrutura social e política, suas artes suas instituições mais importantes. Depois de cinqüenta anos, existe um novo mundo. E as pessoas nascidas nele não conseguem imaginar o mundo em que seus avós viviam e no qual nasceram seus pais.

Penso que esse limiar de transformação está ocorrendo agora e em breve o capitalismo sucumbirá sendo sucedido por uma nova organização social, uma nova mediação social que não o capital e onde os binômios trabalho-remuneração e produção-lucro serão substituídos por contribuir-usufruir em mesma medida.
As empresas no paradigma atual visam essencialmente o lucro, mas se não houvesse mais o lucro haveria razão delas existirem? Para muitas penso que sim! Uma indústria de alimentos ainda teria um propósito e penso que ainda competiria em qualidade de produto com seu concorrente para que o produto a ser consumido fosse o seu e não o do concorrente. Uma indústria farmacêutica séria deve ter consciência de seu papel social. Mesmo não almejando o lucro penso que a Adidas gostaria de ver seu material esportivo vestindo uma porção de gente e não os da Nike e vice e versa. Modificaria a mediação social.
Hoje a mediação social entre pessoas, empresas ou governo é feita essencialmente por dinheiro. Compramos produtos e se não temos dinheiro (ou cartão de crédito!), não compramos. Moramos em nossas casas, mas apenas se pagamos os impostos para o governo. Chegamos ao absurdo de sequer nos relacionarmos com pessoas se elas não forem, em algum momento, interessantes financeiramente para uma recolocação profissional ou coisa que o valha. Amigos se transformaram de modo chic em network. Nós mesmos com raras exceções so trabalhamos ou contribuímos mediante remuneração (ou outro interesse!). Penso que os dias da mediação pelo capital não sejam longos. Os ares da nova era nos inspiram a superar a mesquinhez. Precisaremos aprender a viver em um mundo novo. Mas penso que teremos mais a ganhar em humanidade do que perder em dinheiro!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Hábitos de consumo!


Geladeira, fogão, ferro elétrico, máquina de lavar roupa, celular...  Todas essas coisas são classificadas dentro da economia como “bens duráveis”. Contudo, ultimamente eles não andam durando muito! Por mais que estejamos satisfeitos com nosso moderno aparelho de celular, ao cabo de pouco mais de um ano, se tanto, ele dará seus evidentes sinais de esgotamento. A bateria já não segura carga e o aparelho desliga no meio da ligação, ou então sua carenagem já apresenta riscos que o enfeiam, ou somente porque ele não está mais na moda. Claro, poderíamos adquirir outra bateria, trocar a carenagem, mas muitos sabem que para efetuar tais reparos ficaria “quase” o mesmo preço de um aparelho novo e mais moderno. Então trocamos. O mesmo vem se dando com outros tantos bens duráveis. As peças do motor ou do mecanismo de funcionamento de geladeiras e máquinas de lavar roupa, após seu desgaste natural (ou proposital!), precisam de reposição. Em muitos casos somando-se mão de obra e tudo mais, a manutenção fica financeiramente inviável. Essa é uma guerra entre produção e consumo que não se dá em pé de igualdade. Os aparelhos são feitos para ter uma duração pequena para podermos voltar a consumir o produto novo girando a economia. Não fosse apenas o problema de produzir lixo de lenta decomposição, impossível reutilização e de difícil reciclagem. O próprio fato de sermos manipulados já é revoltante. Acho que esse é um ponto central no fraternalismo. Acho que uma nova postura deveria ser a de recuperar a todo custo nossos bens duráveis. Consertar, consertar até realmente não dar mais, mas, sobretudo, mapear as empresas fabricantes para que elas mesmas durem tanto quanto seus produtos. Uma empresa que fabrica bens que não duram, também não deveria durar! Esse seria um grande “selo verde” de consumidores conscientes. Claro, que precisaríamos mudar também nossa postura. Falamos em reciclagem e até jogamos nossas garrafinhas e latinhas no lixo reciclável, mas não reutilizamos. Uma mesma garrafinha pode ser usada por bastante tempo, mas logo vai para a reciclagem sem antes ser reutilizada para outros fins.
Não se trata de refrear os avanços tecnológicos, mas de ter um consumo consciente. A maioria das pessoas que tem notebooks ou celulares sequer utilizam 30% do potencial que a tecnologia oferece. Se a tecnologia é interessante e nos proporcionará um benefício compensador. Tudo bem! O que não podemos é ficar refém de uma compulsão pelo consumo. Ficar passivos ante a uma descarada manipulação! Claro isso irá exigir que olhemos para nossa televisão “velha” por mais alguns anos. Que nosso divertimento de explorar o celular novo fique para mais pra frente, mas pense bem: O aparelho que apenas sai da sua frente não deixa de ser problema seu. O que é feito desse aparelho? Será que se rastrearmos suas peças não as encontraremos em algum rio ou em algum lixão por ai em algum ponto daquela montanha de coisas mal descartadas, poluindo o lençol freático? Que confiança você tem de que o seu lixo será descartado ecologicamente? Não temos como garantir isso então que tal refrear nosso ímpeto de consumo somente a produtos realmente duráveis feitos por empresas também duráveis?

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Que droga!

Noite calma; pai e mãe já em casa prontos para os eventos imperdíveis: jornal e novela! Já temos enorme prática e não sentimos a menor dificuldade em encontrar a boca com o garfo, portanto o jantar não é problema e não requer atenção especial. Crianças ou adolescentes devem se contentar com atenção oferecida no período dos intervalos. A TV funciona como um anestésico. As aflições comuns, diárias parecem arrefecer ante esse milagroso placebo de projeções multicoloridas. As imagens agem em nossa mente como um ópio que amortece a pressão exercida pelas exigências diárias. Um relaxante mental e muscular ou senão uma droga lícita! Exigências de prazos, compromissos, muitos deles indesejados, cronogramas, tarefas que nos extenuam ao longo do dia a tal ponto que nossos próprios pensamentos são banidos para não onerarem o sistema.
Esse é um cenário tão típico, compartilhado por milhares, senão milhões de pessoas que é fácil reputá-lo como normal. Todavia essa normalidade pode ter um preço alto quando vistos pelo olhar das crianças ou dos adolescentes que podem eventualmente necessitar de um algo mais, coisa do tipo: sentir dentro de si algo que soe como aceitação, reconhecimento, valorização; algo como um sentimento de pertencimento! Interromper figuras que nos são tão caras em seu momento de deleite pode ter como resposta um “calaboca!”; um “perumpouco!”; um “agoranão”.
O preço disso pode vir na forma de um boletim cheio de notas vermelhas, na desobediência nossa de cada dia ou somente num olhar apático de pura frustração por não ter saciada sua sede de pertencimento. No caso do boletim, podemos usar para com nossos filhos o mesmo expediente do qual somos vítimas: a pressão! Afinal de contas a vida deles é mole, só estudam, nada mais justo! Tem todo o tempo do mundo. Não são como nós que não temos tempo para nada! Isso é bom para ele sentir na pele como é estar pressionado! Essa parece ser também uma prática normal! Contudo é também a mesma prática que onera o sistema e ai nossos pequenos vão para a rua e acabam por encontrar o simpático grupo de “perto da escola”. Acabam tendo uma boa recepção, boa acolhida e todos percebem que o pequeno está meio acabrunhado, mas nada que um “deixa pra lá vamos experimentar unzinho!” não possa resolver! Depois de experimentar um ele passa a fazer parte do grupo (pertencimento). Se experimentar dois ele é o “o cara” (reconhecimento), se forem três já vira “meu brother” (valorização). Disso, para ele conhecer o fornecedor da parada é um pequeno passo.
Podemos pensar: “Tudo culpa desses vermes desses traficantes!”. Isso também soa bastante normal! Mas fazendo o exercício de buscar enxergar o panorama pela ótica do traficante o cenário pode ganhar outros contornos. Não tendo nascido em uma casa de bacanas; não podendo estudar em colégio de bacanas, que alternativas capitalistas lícitas restariam para esse individuo? Um sub-emprego com uma remuneração pífia que certamente não lhe renderiam uma vida bacana! O meio é competitivo e para jogar o jogo dentro das regras é preciso ficar ao menos um bom tempo sob o jugo dos bacanas para ter uma remota possibilidade de se tornar um. Mas para jogar “fora” das regras muitos dos bacanas (ou ao menos seus filhos!) ficariam sob o seu jugo. Jogo de poder e força, tanto quanto outros tantos que se vêem em outros círculos sociais.
Da parcela de pecado de todos fica então assim acordado que o bode expiatório é o maldito traficante! Esse maldito tão bendito que expia nossa culpa! Esse ser sem face capaz de receber em seu alforje toda a culpa de uma sociedade que troca os pés pelas mãos e já não pode ou não sabe mais abraçar, conversar ou sorrir. Uma sociedade que fomenta a competição e não a cooperação. Que faz do outro mais um inimigo a ser vencido do que um próximo para estender a mão! Que faz de um filho um empecilho ao nosso tão necessário e merecido descanso!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Homem: Potencialidade e efetividade.


A partir do momento em que o “ser humano civilizado” travou contato com as ditas comunidades “primitivas” que viviam sem roupas, comiam carne crua e muitas até carne humana, surgiu a dúvida: o que distingue o homem do animal? Esses povos primitivos tinham determinados comportamentos tidos como animalescos, contudo, outros eram bastante humanos. Ao nos depararmos com esse dilema sobre o que define o homem, muitos lançaram suas hipóteses. Uns naufragaram na nau da mesmice outros naufragaram na nau da soberba.
Fato é que após Darwim a nocão de homem ficou em suspenso – sem culpa nenhuma do próprio Darwin – e temos somente pequenos ensaios.
Arrisco-me agora a propor um critério: agentileza indistinta! O Mundo contemporâneo nos instiga a competitividade, mas para que? O mesmo mundo contemporâneo se envaidece de sua praticidade. Tudo tem um propósito, é prático, mas qual é o objetivo da competitividade? Que se coloquem inúmeras teorias para responder essa pergunta o que mais salta a vista é o lado prático da competitividade. Na pratica competitividade gera um ganhador e uma horda de aborrecidos prontos a conspirar contra o ganhador somente para que este não ganhe novamente. Caso o conluio seja bem sucedido, teremos os primeiros derrotados novamente se acotovelando para ocupar a vacância do primeiro lugar. Ai o círculo se fecha e o embate volta ao seu inicio: um vitorioso e um monte de derrotados. Atitude típica de animais para ver quem será o “macho alfa”. Aquele que ficará com as fêmeas (ou machos) do grupo; que ficará com a maior fatia do alimento ($) deixando o “resto” aos derrotados.
Existe, contudo uma potencialidade dentro do ser humano: a gentileza! Todavia, conhecemos muito pouco dessa potencialidade. Traduzimos gentileza em ceder o lugar; ou em expressões do tipo “obrigado”; “por favor”; mas isso são apenas pequenas pistas do que realmente é gentileza. Em tempos de vacas gordas todos são amigos. Choppinho no bar da moda; disputa para ver que saca mais rápido o cartão de crédito para fazer bonito… O problema surge quando as vacas estão caminhando ordeiramente para o mais profundo brejo! Não há saída! Precisamos salvar nossa pele! É nesse momento que o “animal” aparece!

Falando francamente: quantas vezes você realmente teve que salvar sua pele (realmente e não metaforicamente)? Ocorre quase sempre uma pequena confusão entre a realidade e a metáfora. Agimos como se estivéssemos salvando nossa própria pele – coisa de vida ou morte -, quando ela realmente não está em risco! Apenas nossos medos trouxeram à tona uma animalidade irracional e que nos fez agir de modo estúpido. Sim estúpido, pois se nossa ação tivesse algum tipo de respaldo do instinto que nos obriga a agir imediatamente frente a um perigo real estaríamos por ele respaldados. Contudo, foi somente uma resposta impensada e irrefletida: estúpida!
Confine um bom tanto de pessoas em um dos nossos famosos “Big brother’s” e veremos vários gestos puramente animais. Todos querendo salvar a própria pele! (R$1.500.000,00).
Gentileza é enxergar através de toda essa animalidade. É ver que por traz dessas atitudes ferozes e selvagens existem seres humanos! Gentileza é ter a nítida compreensão de que não há nenhum risco de morte eminente e que podemos escolher se vamos nos portar como animais ou como seres humanos. A gentileza é uma potencialidade, mas ela fica em segundo plano, pois a visão que vulgarmente temos do mundo é a da competitividade. O mundo se apresenta sempre como um sinal de perigo. O que precisamos afastar é essa visão distorcida do mundo e vê-lo como realmente ele é. Salvo raríssimas exceções o ser humano comum nunca enfrentou um único perigo de vida e morte em toda sua vida que justifique uma atitude com tal grau de animalidade diária.
Torna-se agora uma questão de escolha.
Veja o mundo como ele realmente é e não através do espesso filtro dos seus próprios medos.
 E a gentileza poderá transformar-se em efetividade, mais do que somente um recurso humano armazenado em nossas poeirentas prateleiras de potencialidades genuinamente humanas

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Acensibilidade!


Não, não esta escrito errado! Esse foi somente um truque, um meio que encontrei para chamar a atenção para alguns fatores que considero bastante importantes: acessibilidade e sensibilidade em primeiro plano e especialidade em segundo.
O conhecimento em nosso tempo é caracteristicamente fragmentado. Temos, cada dia mais, especialistas em determinados campos bastante específicos. Especialista em torção de porcas de rosca torta de 8/34 de polegada com rosqueadeira de mira a laser com lente de aumento de 24x angulada. Brincadeirinha! O fato é que nosso conhecimento está tanto mais específico quanto fragmentado. Perdemos a articulação, a vinculação de um conhecimento com outro. Cada um cuida de sua própria especialidade e em alguns casos o “todo” não se encaixa.

Na São Paulo de épocas natalinas vemos nos letreiros de vários ônibus a inscrição “Boas Festas!” se alternando com o letreiro que oferece o destino final e seu número de código. Lampadinhas pontilhadas se entrelaçando umas nas outras que vistas de longe e em movimento transformam-se e verdadeiros borrões ilegíveis. Os míopes ocasionais – aqueles que precisam de óculos, mas resistem em usá-lo em público -, apertam seus olhos para tentar em vão ler o letreiro e quando danado chega ao limiar da distância, onde restariam alguns milésimos de segundo para ler o letreiro e saber qual o destino do coletivo para darmos o sinal de parada lemos: “Boas festas!”. Certamente essa não é a expectativa, tampouco o destino do usuário. Alguma boa alma, quiçá tendo lido sobre marketing institucional teve a brilhante idéia do letreiro, mas não teve a sensibilidade de se colocar no lugar do passageiro e se dar conta da dificuldade que a luminosa idéia poderia provocar.

Contudo, digamos que o míope leitor tenha tido a sorte de flagrar o que realmente queria e seja realmente esse destino que lhe interessa. Dá o sinal, o ônibus pára e sendo ele um cidadão típico, de estatura mediana, terá certamente - mesmo gozando de plena saúde física -, severas dificuldades de adentrar ao coletivo. Isso porque a altura do degrau é, em geral, bastante bem elevada. Não obstante, tendo efetuado o hercúleo esforço de escalar os degraus, ao se desgarrar por um breve instante das barras de segurança apenas para acessar o bolso e pegar seu bilhete para o pagamento da passagem, entra novamente em apuros, pois, o motorista que seria aprovado com louvor na prova para transporte de fardos de feno, arrancou com seu veículo projetando o incauto passageiro na direção da roleta.

As autoridades buscam minimizar as dificuldades de acessibilidade criando secretarias especiais. O produto do trabalho especializado, ao menos em Sampa salta os olhos. O transporte coletivo dispõe de assentos reservados a idosos, gestantes, e portadores de necessidades especiais. Já existem vagas de estacionamento prioritárias. A cada esquina de ruas movimentadas vemos pisos tácteis em socorro aos deficientes visuais, guias rebaixadas permitindo autonomia aos cadeirantes, mas como disse antes o todo não se encaixa. As dificuldades que relatei no início não incidem sobre a parcela da população com necessidades especiais, mas sobre todo o restante com necessidades comuns. Não temos apenas um problema de acessibilidade, mas de sensibilidade. Se as demais secretarias deixam ao encargo das secretarias especializadas o problema de acessibilidade elas mesmas se desoneram da preocupação. Com isso vemos pelos diversos corredores de ônibus espalhados pela capital, enormes plataformas elevadas sem nenhuma utilização e que se transformaram desnecessariamente em obstáculos adicionais aos transeuntes. 

Que exista a necessidade de especialistas em acessibilidade, mas precisamos todos ter a sensibilidade e retomar para si a preocupação com o outro. Não se trata de consultar a secretaria especializada, mas de nos imbuirmos todos da sensibilidade da consideração. Não há que se criar todo um projeto para posteriormente efetuar as adequações de acessibilidade, mas permitir que a sensibilidade permeie o projeto de cima a baixo do inicio ao fim. Também não se trata de criar leis ou normas que devem ser seguidas à risca. Tampouco se trata de um ônus exclusivo das autoridades, mas de experimentarmos sentir na própria pele a dor do outro. Temos o costume de dizer: - Eu fiz minha parte! Acreditando que se cada um fizer sua parte uma se encaixa na outra e assim constituímos um todo. Mas não se tratam de partes, mas sim de visões parciais e limitadas do todo. Visões parciais sem necessariamente limites restritos ou isolados. Nesse caso a “minha parte” invade, se mescla, se confunde, impacta a parte do outro, tanto quanto a parte do outro afeta a minha. Minha parte não se dá por concluída sem a parte do outro. Se a sensibilidade não atravessar a ambos as partes não vão se encaixar no final. Teremos com isso obras monstruosas apenas fruto de encaixes mal feitos. 

sábado, 25 de junho de 2011

Apartheid social

Tempos idos o Gov. Mario Covas criou o "Legal" era um tipo de dinheiro que voce comprava e dava de esmola na rua para os pedintes. Com esse Legal o pedinte podia ir a um local de assistência social, tomar banho, tomar uma refeição, dormir e ir embora quando bem entender. Hoje, pelo que eu saiba, esse programa não existe mais. O dinheiro pago pelo legal era totalmente destinado a instituições assistenciais. Desde então deixei de dar esmolas na rua. Meses atrás viajando de carro com um amigo parei na estrada em um restaurante conhecido para comprar queijo fresco. Lá encontrei uma senhora, com uma criança pela mão, cerca de 10 anos e um bebe no colo. Não demonstrava estar perambulando errante pelas ruas. Dirigindo-se a mim em tom bastante peculiar, quase me intimou a pagar-lhes uma refeição. Não se tratava de um pedido, apelo, súplica de algum necessitado. Soava como uma intimação. Observei o cenário e pronunciei um suave, gentil, porém irretorquível Não! Segundos depois, esse amigo, bastante religioso, caridoso, consternado me argüiu sobre meu gesto, tanto pela negativa, quanto pela serenidade. Expliquei à ele que a atitude da senhora foi por demais corriqueira. Demonstrava ter bastante experiência nesses assuntos, de modo que parecia habituada a ter sucesso em suas abordagens. Todavia, essa atitude poderia ter a capacidade de transformar-se em aprendizagem para as crianças. Uma vez coberta de êxito, poderia traduzir-se em conduta socialmente aceita, tanto quanto atitude bem sucedida e, com isso, produzir mais duas mendicantes habituais, senão, profissionais.
Em prol da erradicação dessas diferenças sociais eu faço, caridosamente, aquilo faço melhor, pensar, e fazer pensar. Escrever, debater, falar o quanto mais e para o maior número de pessoas puder alcançar. Por isso mantenho o blog: http://fraternalismo.blogspot.com/, onde busco debater essas questões por diversos ângulos. Todavia, hoje eu gostaria de indicar uma dessas instituições quando abordado por alguém que necessite, mas confesso não sei onde elas estão. Alguém conhece alguma relação dessas instituições? Tanto para auxiliar quanto para indicar aos que dela necessitem? Esse seria um maravilhoso serviço prestado por todos.
Caso consiga uma relação dessas instituições, me comprometo a criar e manter uma página no Facebook para divulga-las. Não creio que seja o Estado o único responsável por cuidar dos que não conseguiram prosperar dentro do competitivo mundo capitalista. Cada gesto fraternal pode ser bem vindo, mas algo que vise a erradicação desse apartheid social e não um gesto que retroalimente ou mesmo fomente a mendicância.  

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Sonho! Resposta à um leitor!

Um leitor do blog mandou-me um e-mail com o seguinte teor:


Olá Jadir,
desculpe, mas li seu blog e tomei a liberdade de escrever para o senhor. Meu nome é Ludwig Teixeira, tenho 27 anos e sou filósofo. Faço doutorado na Universidade [...] Porém, fato é que estou em uma encruzilhada, pois, não aguento mais passar trabalho e me sentir menor que muitos outros a custo de meu amor pela disciplina. Passo muito tempo estudando assuntos altamente abstratos para ter um retorno, a nível de qualidade de vida, muito pequeno. Nessa última semana estive pensando em jogar tudo para o alto e fazer um famoso 'concurso público'. Pensei: Veja só o que tenho estudado... teoria dos conjuntos, lógica de primeira ordem, filosofia da física quântica... se eu estudar para um concurso certamente encontrarei menor dificuldade e vou passar".
Mas é muito triste jogar um sonho fora e, o que é pior, oito anos de sua vida fora. Assim, encarecidamente, peço-lhe algum conselho quanto a estratégia de vida profissional. O que faria você no meu lugar?

Espero que o senhor tenha tempo para responder.

Att

Ludwig

(Claro que o nome dele não é Ludwig e a postagem foi autorizada por ele) 

Minha resposta:

Oi Ludwig,
Recomendo ambos. Por nada menos do que voce me perguntou. Os blogs são frutos de sonho. Não dão resultado prático algum. Mas em ambos tenho visitas recorrentes de vários pontos do Brasil e de muitos outros pontos do mundo inteiro.
Nos vivemos em uma sociedade que preconiza o sucesso e não percebe que sucesso é somente repetição do passado sem novidade. Ja ouvi dizerem que as empresas estão preferindo profissionais criativos. Os meus 33 anos trabalhando em empresas me dizem que isso em geral é balela. As empresas querem profissionais que usem a criatividade para resolver problemas antigos e recorrentes. Usem a criatividade para termos maior lucratividade e redução de custos. Estão pouco se lixando para a criatividade mesmo.

As faculdades, pelo que sei querem professores que se dediquem e que nenhum aluno se queixe de suas aulas, notas, e provas.

Não é bem por ai também.

Temos duas vias claras a escolher e uma obscura: a primeira é prática. estudar o que querem que voce estude e fazer o que te mandam e ganhar o que te pagam e ficar de boca fechada. Claro, isso não te dá barato. Voce acaba por viver a vida dos outros.

A segunda é o concurso público. Não sou totalmente contra essa alternativa, embora ao longo da minha vida tenha sentido enorme repulsa, hoje ja vejo com outros olhos, mas o mais importante que eu tenho a te dizer é que voce foi “fisgado pelo sistema”. Voce se queixou da qualidade de vida e esta buscando alternativas dentro do jogo para fugir do que ele tem de ruim. Concurso público, visto desse modo, é mero esconderijo.

Essas duas coisas voce deixou claro, mas embora tenha falado com pesar de abandonar o sonho não deixou claro que sonho era?!?.

Esse é o caminho obscuro. Perseguir seu sonho pode não te trazer sucesso, tampouco dinheiro, Muito menos o reconhecimento será certo, mas se voce mata seu sonho voce morre junto com ele. Transforma-se nisso que voce vem execrando. Voce se transforma em competitivo e vive o sonho dos outros.

Podemos ser competitivos durante vários anos de nossa vida. A juventude nos confere garra disposição, força de trabalho. Voce ganha, dinheiro, sucesso reconhecimento, fica por cima. Quando os anos chegam voce percebe duas coisas: que não é mais tão competitivo e te resta a trapaça para ganhar (uma quantidade enorme de pessoas usam esse método), e que abandonou a única coisa que valia o esforço para competir: o sonho!

Eu trabalhei 33 anos dentro de grandes empresas. Tive sucesso, ganhei dinheiro, e deixei tudo isso por um sonho. Fui fazer graduação em filosofia aos 43 anos. Estou terminando o mestrado agora com 48. Certamente vou para o doutorado, mas embora tenha sido seduzido a estudar inúmeros outros autores. Fiz questão de abordar em minha dissertação algo que pudesse mudar o mundo, algo que me dá profundo gosto de estudar.

Sei que vou ter muito trabalho pela frente mas como estou em "começo de carreira"  tenho bastante garra para levar todas as pancadas que sei que vou tomar.

O blog do fraternalismo é um tiro no meu próprio pé. Sei que se meu nome ficar ligado a esses pensamentos não arrumo trabalho em lugar algum. É o preço a pagar por meus sonhos.

Crescemos todo o tempo vendo todos ao nosso redor fazendo de tudo para vencer, para ficar bem, ter bem estar e acreditamos que a vida é isso.
Quando acontece um desastre, uma doença, um desemprego somos levados a acreditar que foi azar ou incompetência nossa.

Errado. A vida é assim, é dura! Mas ela só é assim pois a dureza é nosso melhor professor. Temos a escolha de nos deixar endurecidos ou não. Se nossos sonhos esmorecem ante a dureza eram apenas sonhos, brincadeiras. Se nos cobrem de raiva, de força, mas também de esperança então o sonho te abençoa com a realização, pode não te trazer dinheiro, fama ou sucesso, mas vai dar profundo sentido para a sua vida.

Pelo pouco tempo que tenho dentro do campo da filosofia. Vejo alguns tipos de filósofos. Os práticos. Que têm na filosofia seu ganha pão e só isso. Ganhem bem ou não. Os Desiludidos (esses são os piores) tipo os ressentidos de Nietzsche. Estufam o peito e se dizem ateus convictos, mas apenas por saberem que estavam na "caverna" e viram que tudo não passava de uma farsa. Voltam para a caverna e cospem por todos os lados. Desdenhando de tudo e de todos tapam a porta da caverrna para que ninguém saiba onde é a saida.  

E os como eu que vêem na filosofia um instrumento profundo de mudanças. Que as mudanças que os filosofos promoveram no mundo tenham em geral ocorrido sempre após sua morte é desalentador, mas eu tenho a sorte de ter em mãos também a Programação neurolinguistica que é uma ferramenta bastante prática de mudança.

Minha tarefa é bastante cruel e certamente não espero reconhecimento, pelo contrário, acho até estranho ter tantos amigos e poucos desafetos. Eu sou aquele cara que vai apontar as coisas erradas, que vai revelar as hipocrisias. Que vai mostrar a meia furada,  o terno rasgado. A etiqueta chinesa da gravata de sêda.

Mas meu trabalho não é so mostrar o erro, mas apontar a direção.

Pode ser desalentador olhar ao redor e ver uma profunda crueldade, mas essa crueldade é fruto da ação de pessoas que mataram seus sonhos e por isso mesmo já morreram.

Meu trabalho é ressucitar pessoas através da ressureição de seus próprios sonhos.

Desculpe, se voce queria de mim uma dica ou um truque sobre como vencer na vida e ter uma carreira de sucesso, deve estar profundamente frustrado.

Mas eu fiz meu trabaho. Se um dia em sua vida seu sonho falar baixinho dentro de seu peito amargurado. Voce não vai poder alegar que não sabia que estava matando seu sonho.

O sonho faz voce viver apaxonado.

Já tive sua idade e hoje tenho quase o dobro dela, se uma virtude eu tenho foi a de não me deixar sufocar meu sonho.

Passo nesse momento por dificuldades extremas, mas não abro mão de amar, e de estar profundamente apaixonado pela vida.

Por favor

gostaria de seus comentários tanto por e-mail quanto no blog.

Grande abraço.

Jadir

quinta-feira, 10 de março de 2011

Reciclagem!

O tema “reciclagem” tem sido alvo de louváveis iniciativas nos últimos tempos, mas ainda que louváveis muitas dessas iniciativas têm por trás uma motivação muito menos fruto uma consciência verde do que uma clara oportunidade lucrativa. Reciclagem tornou-se um investimento lucrativo, Mas se fossem realmente iniciativas verdes, apregoariam, antes, os outros “R’s”. É louvável que alguém tenha a consciência de reservar sua garrafinha de água, para descartar apenas no cesto apropriado para reciclagem. Contudo, essa mesma garrafinha, pode antes ser “Reusada”, Isto é usada novamente. Temos, saindo de nossos filtros e bebedouros, água de ótima qualidade que poderia ser envasada nessa mesma garrafinha e ainda teria a capacidade de reduzir a quantidade de copos descartáveis. Sabemos que o plástico leva mais de cem anos para se decompor no ambiente. Não estamos pedindo que você reuse por todo esse tempo, mas quantas garrafinhas e copos descartáveis seriam poupados se reusarmos nossas garrafinhas por um mês?

Por conta de redução de custos já se fala em água de reuso, mas muito do que está a nossa volta pode ser reusado, isto é, usar novamente para o mesmo fim. Por outro lado existe outro “R”que também deveria vir antes da reciclagem: Reutilização. Utilizar para outra finalidade.

Da próxima ocasião em que a loja de conserto de qualquer coisa disser pra você que o reparo vai ficar quase o preço de um aparelho novo. Conserte! Menos lixo precisará ser reciclado.  Você pode também usar aquele velho radinho de pilhas como “peso de papel” dentro de alguns anos ele valerá uma pequena fortuna.
Pense realmente e use sua imaginação. Antes de reciclar, será que posso reusar? Será que posso reutilizar? Só depois recicle.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Demandas reprimidas!

As bases fundamentais do fraternalismo giram em torno do binômio contribuir-usufruir em contraposição à sua antítese capitalista produção-consumo. Enquanto neste segundo o eixo central é o capital ou a propriedade do capital, no segundo o eixo que os une é a fraternidade. Dentre os valores norteadores do fraternalismo a gentileza e a elegância nos garantem que não é preciso nenhuma animosidade com quaisquer dos sistemas vigentes. Em que pese isto, não é menos verdadeiro que é necessário ressaltar as diferenças fundamentais. Enquanto no capitalismo existe um fomento exacerbado ao consumo, pois quanto mais houver consumo, mais haverá produção e o eixo do capital girará com maior velocidade. No fraternalismo é preciso para fazer a girar seu eixo a contribuição fraternal. Quanto mais contribuirmos com o nosso melhor de modo fraternal, mais acrescentaremos à nossas possibilidades de usufruto. Mais teremos fartura, mas é importante atender a uma das poucas objeções que foram feitas até então à idéia de fraternalismo.

Na idéia do fraternalismo existe a abolição do intermédio do dinheiro entre o contribuir e o usufruir, isto é, se em determinado momento alguém queira usufruir de um determinado produto este pode se dirigir à rede de distribuição e simplesmente tomar para seu uso o produto de seu interesse sem nenhuma contrapartida monetária ou de qualquer outro tipo. Tampouco se fará paridade entre a quantidade ou qualidade da contribuição efetuada por essa pessoa. Todavia, imaginemos que muitas pessoas queiram ao mesmo tempo fazer uso de um bom vinho. Dezenas de pessoas se dirigindo à rede de distribuição e querendo tomar para seu uso aquele vinho. Em certo momento pode haver desabastecimento e carência do produto. Mas, note-se que este é um problema que nasce no capitalismo e não no fraternalismo. Nasce de se olhar a partir do viés capitalista, onde grande parte da população está tolhida do consumo desse produto em sua rotina diária, não por nada senão pela falta do capital suficiente para adquiri-lo. Com as políticas assistencialistas oferecidas nos últimos tempos a população mais humilde, deserdada que fora por tanto tempo, se viu em condições de adquirir produtos até então vedados ao seu acesso. Aeroportos apinhados de gente nos períodos de férias gerando tumulto e desconforto. Para quem já estava habituado a voar de avião isso era um transtorno. Já para quem fazia uso pela primeira vez tudo é festa, e, diga-se de passagem, o tratamento não é diferente do que a maioria tem em geral em rodoviárias. A dificuldade se dá por existir uma demanda reprimida ou até oprimida. Ora, não havendo necessidade de se reprimir quaisquer demandas, tampouco se fazendo incentivo exagerado e desnecessário ao consumo. Pressupostamente, a idéia original do capitalismo de regulação de produção e consumo tenderia a se equilibrar mais em torno da contribuição e fruição e, com isso, desfazendo desequilíbrios.

Mas para que a coisa não fique apenas no pressuposto. Consideremos a hipótese do desabastecimento de produtos. Para uma grande parcela da população habituada ao consumo de arroz, feijão e farinha o acréscimo de uns bons pedaços de picanha, salmão, vitela, cabrito e caviar, tanto quanto de bons vinhos e wiskies seriam bastante bem vindos. Todavia, não é de se acreditar que toda essa população faria uso cotidiano desses produtos por anos a fio. Salvo poucas exceções ninguém toma wiskie 12 anos no café da manhã. Quando se tem fartura e acesso o consumo se dá de modo muito mais comedido. Os exageros, em geral ficam sempre por conta de demandas reprimidas. Ademais esse problema existiria somente se a implantação do fraternalismo se desse de modo vertical ou seja por imposição e não por adesão como é nosso entendimento.       


Jadir Mauro Galvão